quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Boas Festas!


Antes que se acabe o que quer que seja, que reste o Mundo e a gente. Mas se o Mundo se quiser mudar ou até terminar, pois que vá fugidio, sem grande alarido. Em minha casa, estará esquecido.
O Mundo serão  nozes para quebrar,
A massa a levedar e as passas para debicar,
Um dedal a mais e muito mais, de Porto, esse vinho que me faz alar.
E uma menina redonda, bojuda, casca grossa,
Essa abóbora inchada de polpa amarelada,
Em sonhos desfeita, comidos sem se olhar.
E vem leve a canela sorrateira
E uma chuva de açúcar,
Neste amargo de Mundo que se diz finar .
Boas festas!
Mz

Imagem:Kelly rae roberts

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Do Avesso.



Existem pessoas peculiares.
Esta de que vos falo, nunca tolerou costuras coladas ao corpo. Não se lamenta das palmadas levadas por ser tão birrento com tão distintiva irritação. E passou anos e anos a revirar as meias e toda a roupa interior que vestiu por ter de cobrir o corpo do pudor que a lei exige cobrir. E assim andou, resmungando e praguejando anos e anos com quem lhe tratou da roupa sem nunca respeitarem estes gostos contrários de preferir andar ao avesso.
A idade foi uma jornada sempre com os mesmos tiques e comichões. Assim andando, outros apêndices incomodativos se lhe juntaram; os sapatos que lhe apertam os joanetes e a maldita dentadura que lhe dá um doloroso charme. Sabe que é uma pessoa boa, porque assim lhe dizem os outros. Dão-lhe palmadinhas afetuosas libertando-o da consumição de todas estas birras e resmunguices. Sorri porque resiste a mais um Dezembro sabendo que o mundo não se vira ao contrário por alguém se vestir do avesso.
Avesso que dá cautela, é o mundo dos homens que os obriga a um sorriso azedo ao se remendarem vidas costurando um ponto aqui, um ponto ali, cerzindo a exploração do homem pelo homem que se faz sem pudor à luz das Boas Festas.
Mz
Imagem: Tela Vincent Van Gogh

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Energia Eléctrica.


Isto não é um ensaio cru de opinião, é a minha tese caseira sobre a necessidade de um serviço de energia que me custa os olhos da cara.


A factura é pesada, mas chegar a casa com a escuridão da noite e saber que existe um interruptor que me dá a luz que precisam os meus olhos, é como ter o meu sol. É um prolongar do dia imprescindível que não se questiona. Uma refeição quente, a roupa lavada, a blusa engomada. Muitas outras coisas banais que passam por um chá quente ou as notícias do mundo. Numa noite ou outra de solidão, um candeeiro aceso até mais tarde e um livro que iluminam e alimentam o saber de coisas que não me chegam apenas pelo meu viver ou conviver. Luxo, são as velas que passam a acessório, uma luxúria de aromas na banheira que relaxam e embalam desejos. Consumir por prazer ou por necessidade, é uma questão que se coloca sucessivamente.

A minha factura é pesada, mas tenho a minha noite sem medo das sombras. Não obstante, consciente de que, de um momento para o outro, se a sociedade se destruturar até ao limite, também eu e muitos de nós que ainda VIVEM poderão passar para o lado dos que já, hoje, apenas SOBREVIVEM entre noites que se alumiam à luz de velas e me fazem lembrar o cheiro a mortos.



Mz

Texto de Opinião:"Sabemos distinguir entre necessidades (aquilo que dependemos para sobreviver) e desejos (o que gostaríamos de ter) ?"

Imagem:Galeria de pintura e ilustrações

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Correio!



O carteiro é um homem simpático, gorducho. Um baixote com rosto de peixe-lua mas de sorriso aberto. Bonacheirão é uma palavra que lhe assenta na perfeição. Hoje cruzámo-nos, e ele, corado de pimentão, estende-me a mão com fineza. Em jeito de desculpa solta um sussurro já arrependido...
- Tem uma encomenda. Vem de Lisboa e tem O Rio no remetente.
- O Rio?
Soltamos uma gargalhada cúmplice e, num dueto desafinado aventámos:
- Que encomenda estranha!
E era o Rio. O Rio  de Janeiro embrulhado em rosa, aquela cor dos afectos. Um mar distante que se faz perto por singelos gestos carinhosos. Um cheiro de Café com Canela, de morena com graça que vem e que passa, mas sem  eu a ver. Desencontros que se acalentam com a doçura e apreço de um laço.
O carteiro trouxe-me uma prenda da Carolina aqui que está de visita a Portugal. Uma prenda trazendo a emoção, o pão e o açúcar que alimenta o entusiasmo humano.
Mz
Imagem: Paul Klee

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Escutem...



Era uma espécie de ritual cuidando não deixar ninguém para trás. Um excesso de zelo para com todos, evocando a Deus proteção por tudo e por nada. Tornou-se num acto banal deixando de enternecer e apaziguar, mesmo quando os lembrados necessitavam de palavras protetoras, ou em dias de mais desespero, uma oração. Todas as cartas que lhes enviava tornaram-se num chorrilho fanático até à indiferença. Até que, sem se aperceberem, deixaram de o ouvir. Queriam amizade e não a devoção explícita como um veículo do culto. O emissário das cartas era um fanático religioso. Um dia, despiu a carapaça e lançou a fúria, exclui-os das orações e remeteu-se ao silêncio. Deixou de enviar as palavras protetoras e abandonou a amizade. Os outros, sentiram alívio daquela fé falsa e exacerbada, mas não o excluíram das conversas.




Mz

Tela: Grant Wood



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Apenas a Alma




Parece que hoje, o sol foi teu amigo. Iluminou a tristeza para lá de tudo o que é luto. Teve a gentil cortesia de nos iluminar e aquecer-nos junto a moradas de pedra. Se nos estiveres a ver, deves sorrir por esta fugaz primavera que surgiu pendurada de seda negra. Os murmúrios neste dia, foram de lamento por afundarem o teu corpo desmembrado, agora, de vida. Para lá dos muros brancos, muitas sombras negras de quem já não se veste de preto. Apenas a alma.
Mz

Imagem: Tela de Graça Morais

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fábrica de Letras


É difícil escrever por encomenda. É que as palavras não andam por aí à vontade do freguês como quem vai às compras, pega no carrinho e toca a andar, toma lá um tema e desenvolve.
Faz-te à escrita!
Escrever algo com sumo, dá trabalho. E, para quem não saiba, não se apanham ideias como quem apanha fruta da árvore. É preciso ter queda sem se cair na tentação de nos desviarmos do que a fábrica nos pede. A gerência está atenta, mas não usa lápis azul, por isso, dá-nos liberdade. Não censura e é imparcial. Eu gosto disso. Contudo, a fábrica limita-nos a criatividade com aqueles temas impostos. Temos de nos contentar apenas com as palavras em paletes, esse material guardado à espera de ser esgotado. Estantes de letras em stock, separadas em caixas de A a Z. Letras e mais letras obedecendo à gestão de regras administrativas. Tudo registado para que não faltem as quantidades certas a produzir textos e reflexões à medida de uma encomenda. Estão a imaginar uma fábrica assim? Ela existe e eu escrevo a encomenda nº 44.
Mz
Fábrica de Letras
Imagem: Pintura de Fernando Botero

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Pombinhas com humor.


A mulher envelheceu e a par dela, a sua pombinha fez-lhe companhia. Incomodava-a a textura do cabelo mais rebelde e áspero de alguns fios que cresciam brancos. Aliviou o problema com cremes hidratantes e bisnagas de tinta colorida, entregando-se nas mãos de profissionais. Tomou consciência de que, quando se envelhece bem, aprecia-se ainda mais os cuidados de outras mãos pelo corpo. Sente-se tudo sem urgência, e cada toque, passa como um rio de serenidade na carne e no espírito. Não há pressa. A mulher passou a dizer também, que os espelhos são para usar e abusar. Os espelhos também servem de consciência à felicidade de se estar vivo. Olhou para a sua pombinha e disse-lhe:
- Anima-te, também te vamos dar cor!
Assim se perdeu uma pomba branca.
Uma história de senhoras que vivem os últimos dias das suas vidas com algum humor, quando contam que no seu tempo, todas as crianças, jovens e velhas tinham pombinhas. Dizem com muito carinho que, continua a ser um bonito nome para se dar aos órgãos genitais femininos. Não o deixem morrer!
Mz
Imagem: Joan Miró

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Desafio



Da minha janela observo a rua que todos os dias desço para me juntar com o resto das pessoas. Sociedade? Sim; trabalhadores, estudantes, crianças e toda uma panóplia de gente misturada com alguns animais de estimação. Amigos também. Hoje não saí de casa, porquê? Chove a cântaros e decidi ficar apenas por aqui, à minha janela. A minha janela é a minha janela; são os olhos dos meus olhos e ninguém consegue ver o que vejo e como vejo a minha rua. Será? Tem lojas com canteiros de flores tímidas, um pouco desfolhadas, encolhidas de acordo com a estação, daqui, quase dá para sentir o cheiro da bica acabada de sair, sentir os aromas do pão quente da padaria preferida. Deste lugar, fica o vosso parecer sobre o que os meus olhos vêm e oferecem todos os dias num jeito desafiador de ser diferente e criativa no que vejo e escrevo.
Mz
Um desafio feito na hora e escrito à pressa - nem um ponto a mais, nem a menos[7 Pontos finais, 3 Pontos de interrogação, 2 Pontos e vírgula, 10 Vírgulas]
imagem: Tela Amedeo Modiglian
Pesquisa google 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Durante o sono.


O tempo parou com um tiro seco de rolha. Um estalo de línguas saboreando qualquer coisa boa. Um copo de espumante gelado. Presumo. Seria bom se todas as refrescantes bolhas de ar não se convertessem em espinhos na minha goela. O sono não devia ter pesadelos. Mas, salta-se de um para outro. O sono não me dá tréguas. A pele transpirada e o coração a bater fora do normal, lembro-me vagamente de minha mãe que tem angina de peito e ainda não sabe. Não posso esquecer-me de lhe dizer.
Ninguém me acorda e eu, com o coração nas mãos e bolhas de suor por todo o corpo. Preciso que me expliquem os carros amolgados e ferrugentos amontoados na praça. As lojas fechadas, as portas trancadas e as janelas sem sombras de gente. Não entendo para onde foram todas as pessoas. Eu estou ali apenas comigo e mais ninguém.


Mz



imagem: Tela Georges Braque
Large Nude 1908 AQUI

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Por um fio.


Não me dou com a monotonia dos dias nem com a monotonia do pensamento. Por isso, louvo a natureza em mudança permanente e o levantar de vozes manifestando o que querem e o que não querem para este país. Ainda que lutem pacificamente e sem resultados, erguem palavras em cartazes e marcham seguros. Sem querer, abafam o estalar das folhas secas esmagando a beleza deste outono porque de momento, estão cegas de indignação. E as folhas por um fio, aquelas que restam penduradas, querem desprender-se e gritar.
- Acordai! Voltaremos na próxima Primavera.


Mz


O Cair da Folhas
Imagem: David Lorenz Winston

domingo, 30 de setembro de 2012

Embrulhar Sonhos




O rapaz largou o sonho. Empilhou os livros e rendeu-se. Guardou-os todos em caixas de cartão que já transportaram bolachas e outras coisas. Suspirou e fechou-os juntamente com restos de aromas. Café, especiarias e talvez lavanda. Perdeu-se com a lavanda e divagou - um anti traça talvez - Engoliu em seco. E porque era obrigado a arrumar o sonho, apressou-se pegando desembaraçado no novelo de cordel para apertar as caixas com os livros e os aromas que estavam ali por acaso. Voltou a suspirar e hesitou no nó que lhe daria.

- Cego ou de laço?

Optou pelo laço. Sempre lhe dava um ar esperançoso de voltar  à faculdade.

Mz



Imagem: Odilon Redon

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Inocência



Hoje lembrei-me de uma ideia tão estapafúrdia quanto inocente num tempo em que a adolescência ficava para trás. Um êxtase de vida ilusória de permanecer sempre igual. Jovem e feliz. A mesma casa para sempre. Os mesmos amigos. A convicção da eterna estabilidade. Foi um período de tempo de uma doce dormência, o mais curto que passou por mim. Quando me apercebi que nada disso seria possível, chamei-lhe a mentira do tempo suspenso.
 
 
Mz
 
 
 
 
Imagem: Tela de Odilon Redon
Pesquisa Google

domingo, 16 de setembro de 2012

Confissões



A casinha funda, térrea, fresca e musguenta, o esconderijo. O clube de Verão até ao último dia de férias. Da casinha do poço de céu aberto, saíam por vezes ecos malcriados dos miúdos que hoje já têm filhos crescidos. Contam-lhes do esconderijo, o lugar onde gostavam de soltar as palavras mais feias da língua portuguesa. As palavras proibidas. O prazer de gritar bem alto. E o eco era a fascinação. O eco, o retorno de se ouviram a eles próprios num gozo que ninguém conseguia entender.
Mz
imagem: David Lorenz Winston


domingo, 9 de setembro de 2012

O Noivo


O fato barato, as gravatas fora de moda e os óculos que não negam a miopia, passaram à história. Acabou-se a modesta imagem do rapaz de Vancouver. Eu canso-me de o olhar e tentar ver outra coisa, mas ele apresenta-se todos os dias como um noivo.

Os homens do povo vestidos com restos dos filhos passam a sesta à sombra da árvore mais antiga da aldeia e palitam os dentes em forma de reflexão. Soltam palavras de vez em quando dando azo à fantasia. E vêm o mesmo que eu. O Álvaro*, o emigrante que veio desposar o rosto cansado da economia portuguesa. É o noivo vaidoso que deixou a noiva só e quase abandonada depois de ter a aliança no dedo. A economia apenas lhe sentiu o sabor dos pastéis de nata naquele beijo fugaz e a cópula não se cumpriu. Veste-se de noivo todos os dias e, a noiva perplexa, espera o êxtase prometido.


Mz




imagem/Tela Ernest L.Kirchner

domingo, 2 de setembro de 2012

Manhas de Cão



Talvez o meu cão entenda para cima de cinquenta palavras. Entre ordens, nomes de pessoas e de outros bichos, também o nome de lugares, objetos e brincadeiras. É vocabulário solto. Muitas vezes, tenho de baixar a voz ou utilizar sinónimos de palavras que ele não conheça, para  não ter um cão de orelhas no ar preparadíssimo para sair, quando terá de ficar em casa. Chego até a convencer-me, de que lê o dicionário às escondidas quando me tem pelas costas. A minha maior luta, foi tentar metê-lo num elevador e quase perdi a paciência quando demorei dois meses a convencê-lo. Agora, já se recusa a subir e a descer escadas. Os bichos são como os homens, depressa se habituam à papa doce.

*Os recomeços são ciclos contínuos, como um cão que roda sobre si mesmo tentando alcançar a sua própria cauda. Ainda que não se alcancem todos os objectivos, o importante é nunca desistir.

Mz




Escrito para Fábrica de Letras
Tema: Recomeços

Imagem: Acrílico de Paula Rego

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Apenas Vestidos


Eu gosto da cor preta para os meus vestidos. São apenas vestidos de que gosto e nada têm a ver com cerimónias especiais. Nem cocktails, nem casamentos, nem funerais. Apenas gosto de vestidos pretos. E, quando vejo a minha amiga, viúva de dias vestida em tons de areia, sinto alívio. Não me atrevo a dizer-lhe o quanto gosto de a ver assim leve por fora, quando sei que é apenas tristeza e um vazio interior que a invade. Um dia, se me tocar a viuvez, também quero ter a coragem de contrariar o peso da perda, aliviando de certa forma o semblante. Porei o preto de parte e combaterei a tristeza, assim, como uma terapia de equilíbrio emocional.



Mz

imagem: Giovanni Boldini Aqui


sábado, 18 de agosto de 2012

A Roupa Encolheu?




Depois das férias sinto-me sempre uma selvagem a quem lhe deram um espartilho e um par de sapatos com um número abaixo. O corpo ganhou a forma esparramada da espreguiçadeira, do dolce far niente, do chinelo no pé e do quanto menos tecido melhor. Agora, este meu corpo esturricado pelo sol parece uma múmia enfaixada numa mortalha. Mecânica, hirta e lenta, tento respirar sem que se rebente uma costura ou que salte algum botão da minha roupa que parece ter encolhido.



Mz
 imagem -  Galeria das obras:
Hernest Ludwuig Kirchne


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Aterrei...




Aterrei na areia aos saltinhos como um animal coquete com cócegas nos pés. E tal como eu, também outros saltam sem jeito no areal até se colocarem a salvo daquele chão aceso. Aqui, existe um zumbido de colmeia que não devia estar. São as conversas na areia que zunem soltas em diferentes línguas e, quanto mais o sol queima, maior se torna esta espécie de enxame. Abrem-se guarda sóis que giram aos gomos quando o vento quer. Repousam nas cores das toalhas mais ossos e mais carnes à vista de todos. Solta-se por vezes uma brisa e, mesmo ao meu lado,  o tropical coco comprimido no frasco quando se besuntam os corpos. Se o vento mudasse de rumo...
-  É isso!
Quanto mais distantes forem as conversas maior afinação têm as ondas.
- É essa cadência do gigante azul que eu quero. É esse ir e vir desmaiando transparente de tanto correr areia fora.



Mz
Imagem: Isabel Galery Aqui






quarta-feira, 18 de julho de 2012

Férias no Céu!



Há minha maneira, quero rumar ao céu
Sem motor,
Sem asas,
Sem bagagem,
Sem corpo.
E se não houver céu, irei na mesma confiante.
Há minha maneira, existirá sempre um lugar.
O pensamento tem sempre coisas.



Mz



Imagem:Tela de Closed Eyes, 1895
 
Odilon Redon - Google

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Ponto Negro.


Primeiro, pareceu-me apenas um ponto negro na toalha de mesa. Minúsculo. Dei por mim com uma lupa a verificar que surpresa tão miúda era aquela. Uma concha espiralada. Uma casinha perfeita. Um caracolinho tenrinho e a sua baba de prata!
Pequenino, tal qual um ponto negro. Era o suspeito na minha toalha.
Concluída a busca e reconhecimento, Le Petit Escargot, deveria ter sido esmagado logo à primeira hipótese.  Mas coloquei-o sobre uma ramada de hortelã que tenho num dos vasos de ervas aromáticas do meu também minúsculo jardim de varanda larga.

E escrevo este texto banal, porque, mesmo nas coisas mais insignificantes, vamos alterando formas de estar. O facto de me encontrar  longe  da aldeia, faz-me esquecer as vezes que eu maldisse destes predadores de alfaces tenrinhas e morangos da horta de minha mãe. Agora, entendo a minha amiga Alex que tem umas quantas galinhas velhas apenas para darem ovos e se recusa definitivamente a fazer delas umas boas canjas caseiras.


Mz
Imagem: Galeria de obras de Fernando Brotero
Pintor e escultor colombiano


quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Viúva


Não me canso de dizer que agora sou viúva. Guardo sapatos de defunto em caixas brancas à espera de pés quentes com o mesmo número. Suplico por conversa. Falo dos fatos quedos que não sei a quem dar, agora, que não tenho marido. Já não capricho nos almoços, vou depenicando coisas simples sem grande vontade. Consolam-me as sobremesas e algumas victórias nos jogos de tabuleiros com as minhas amigas. Existe silêncio em demasia na minha casa. Acho que vou adoptar um animal de estimação para me acompanhar nas sestas de Verão, e se ele me emaranhar as linhas do crochet, sempre poderei soltar uns palavrões, para depois, perdoar as traquinices do bicho.
Há noite, corro as novelas e deito-me tarde com a ilusão de que a noite  seja menos longa. Não sem antes espreitar à janela se corre vento ou se consigo ver uma estrela ou outra.

Um chá ao deitar da cama com um lugar vazio ao meu lado, não é grande motivação para passar ao nível seguinte das partidas da vida. Amanhã, vou arranjar um gato para poder acariciar e sentir o bater de outro coração.


Mz






Imagem:Galeria de:

Escrito para  Fábrica de Letras
Tema: Motivação




terça-feira, 26 de junho de 2012

CR7


Ainda do mesmo. Futebol. CR7

A distância e a privação familiar na vida de uma criança é uma carência cruel quando se precisa de mimo. Chegar à noite sem um beijo de mãe ou um afago de pai, são noites frias, não duvido, ainda que o calor desidrate o corpo. Máxima disciplina e um pouco entregue a si próprio, sob a tutela de um clube, apostaram e ele ganhou. Esforço e dedidcação, talento. Hoje é um símbolo português no mundo. Tem a família como o seu porto de abrigo, e eu louvo-lhe o espírito familiar. O menino já é homem e se existem espelhos, ele é um dos que merecem ver-se em todos eles [humildade fica bem, mas, exagerada transforma-se na pior das vaidades disse-me sempre  minha mãe]. Pois que tenha vaidade pelo que é, a mim não me afecta nada.
E, aqueles a quem o futebol até lhes trás alguma alegria, aqueles que até podem não ter cheta e beber minis geladas com um cachecol de lã enrolado ao pescoço, pois que o façam. Ainda que amanhã se acabe a festa, ainda que no bolso lhes restem apenas alguns euros até ao final do mês, estes portugueses, jamais iriam para a porta de um adversário gritar por um nome estrangeiro, como fizeram hoje algumas dezenas de espanhóis ao gritarem por um argentino que não lhes pertence.Estiveram mal.
CR7, terá sempre uma madrasta à esquina. 


imagem: Google

Mz

terça-feira, 19 de junho de 2012

Futebol e a nossa Selecção!



Não sou muito fã de bola nem da disparidade de todo aquele mundo faustoso em relação a outros atletas de alta competição. Estou a falar como é óbvio, de um grupo restrito de jogadores de grandes clubes com contratos milionários. Atletas de alta competição, recompensados pela sua qualidade, performance e rendimento. Fazem mover milhões, fazem ganhar milhões e ganham milhões. Talento, e muito, mas muito trabalho e não sorte ao euro milhões. Jovens demais com altos salários, facilmente manipulados por um orbe de marcas de luxo. Sonhos tornados realidades, quem não quer?
Acima de tudo, devemos enaltecer o profissionalismo, a atitude e a garra por aquilo que sabem fazer bem. Posto isto, todos temos visões diferentes a respeito deste grupo restrito de atletas de gostos caros. São muitas as opiniões, mas negar a evidência de homens que são autênticos portentos de profissionalismo reconhecido no mundo inteiro, é negar apenas a evidência. Não porque não! Quem a nega, vira-se apenas para os acessórios, esquecendo que até o melhor entre os melhores do mundo, pode falhar. Perdoa-se apenas quem queremos, porque o ser humano apenas vê o que lhe interessa, o resto, ao mínimo erro, soltam-se os cães.

imagem: GALERIA Umberto Boccioni
(Pintor e Escultor Italiano)
Mz

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O povo elege.



Eu sou povo e acho que o povo gosta é de Santos que se aproximem mais da terra. Daqueles que sabem o que um homem e uma mulher querem para a vida. Saúde. Um namoro abençoado. Um casamento. Nem que se confunda fé com a busca incessante de êxitos numa base de ideais.

Varandas de colchas à mostra, ruas atapetadas, juncos do campo e o cheiro a erva-doce a subir pelo ar quanto mais pisadas são. Os passos, continuaram ao compasso solene da reza e da banda em gloriosas procissões. E o Santo António, um pouco tosco de menino ao colo, lá vai saindo à rua uma vez todos os anos. Existe o outro, o Padroeiro, com uma igreja de retábulo e tecto de uma agradável riqueza barroca que também vai na procissão, mas não é proclamado favorito. Este, é um santo de Inverno e, nesta estação, há demasiado frio para dançar no largo. Os arraiais não querem chuva e os anjinhos não se podem constipar nem molhar as suas asas penacheiras.

Tal como os homens emergem na sociedade, na vida comum como na fé, também os Santos se destacam abafando outros Santos. Promessas. E o povo elegeu o Santo António. Este, sem saber, lá foi tirando protagonismo ao outro santo. Levei tempo a entender que também assim se endeusa quem o povo quer.
Mz

Tela de Armanda Passos
Pintora portuguesa
aqui

domingo, 3 de junho de 2012

Era uma vez...


Já fui criança e já fui mãe. Muitas histórias infantis leram os meus olhos e foram ditadas pela minha voz. Repetidamente.
- Era uma vez uma princesa...
- Era uma vez um rei...
Histórias na perfeição de um modelo ilusório com personagens belas, más e feias à mistura a encaixarem numa magia que se quer ingenuamente perfeita. Adormecem-se as crianças formatadas neste sonho. Pela  manhã, todas as meninas querem ser princesas e todos os meninos querem uma espada. E vão sonhando e brincando com reinos perfeitos. Depois, é um crescer natural e um despertar óbvio para a vida. E chega o dia que se quebra o encanto. Continuam os reis e as princesas numa outra realidade. Num desfile de vaidades apresentam-se realidades e factos. A perfeição é uma fachada de histórias e escândalos abafados. Actos contínuos de acções interditas e casos obscuros. Mentiras e festas sumptuosas. Gaste-se e encante-se com protocolos inúteis. Ainda assim, as mulheres republicanas e cientes da realidade continuam a sonhar com príncipes perfeitos e, os reis a sonhar com plebeias generosas. Como a imperfeição é ávida de ilusões...




Imagem: desenho de Almada Negreiros

Escrito para Fábrica de Letras
Tema: Perfeição


Original escrito e publicado...
Mz

domingo, 27 de maio de 2012

Por aqui...



E de repente tudo se torna pequenino ou desaparece. Os textos escrevem-se cada vez mais curtos. Sintetizam-se as ideias. Até parece que se escreve de acordo com a crise. Poupam-se as palavras. E poupa-se a paciência de quem nos lê, também. De repente, parece que tudo é míngua. Parece que já não há tempo, não há paciência. Será descontentamento com a vida que lhes rouba a criatividade ou existe muito ruído à volta que os desconcentra? Apaixonaram-se, casaram, nasceram bebés ou perderam-se nas redes sociais? Os blogues parecem ursos. Hibernam. Fecham.




Fotografia com a gentileza
 do blogue Diário de Lisboa
Alcântara, LX Factory 


Original, escrito e publicado...
Mz

domingo, 20 de maio de 2012

O Espírito




Tempo a tempos, o espírito pede-me idas à missa. Pediu-me hoje e eu disse que não.
- Hoje não te levo, hoje vamos os dois ver o mar.
E o espírito sossega por uma temporada. Depois vai voltar e dizer-me que a igreja ficou esquecida. E vai crescendo uma vontade de lhe gritar e chamar-lhe todos os nomes impróprios para um chato invisível.
- Meu caro, quando chegar a hora iremos os três. Eu, tu e uma estranha inquietude que não consigo explicar.




Fotografia do blogue The Lisbon Diary
Pátio D. Fradique (Castelo)


Original, escrito e publicado,
Mz

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Mar e Areia...


Não nos separem
Que eu galgo louco
 Obstáculos
Para te sentir
Quente.

São
As tuas curvas
De corpo dourado que atrevo
Tocar.

Para além de aves, pessoas e fotografias
És minha.

Arredo conchas
E arrepio-te
No meu espumar
Derramado.

E cego
Deixo-te sabor de sal
No grão do teu ser.





Fotografia do blogue Diário de Lisboa
Foto - Lisboa / Terreiro do Paço


Original escrito e publicado...
Mz

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Fado




O Tejo chorando seus ais,
Renegado sozinho bebia
Remoi desgarrado a um  canto,
Uma doce melancolia.
Andorinha de barro colada,
Numa parede já velha
Vigia copos de vinho,
Na mesa da casa caiada
E no xaile negro da noite,
Um eco naquela viela,
Solta a palavra chorada...
Arruma a franja caída,
Em jeito fadista, é Lisboa!


Acordes de uma guitarra
No colo quente da gente,
Que canta fado com garra
Fatal sabedoria,
Ouro puro e tradição,
Ditar destino da vida
Na pauta de uma canção.








imagem: fotografia "Desta Janela..."
do blogue Lado B-B Side
Tema: Destino



Original escrito e publicado...
Mz