segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Ponto Negro.


Primeiro, pareceu-me apenas um ponto negro na toalha de mesa. Minúsculo. Dei por mim com uma lupa a verificar que surpresa tão miúda era aquela. Uma concha espiralada. Uma casinha perfeita. Um caracolinho tenrinho e a sua baba de prata!
Pequenino, tal qual um ponto negro. Era o suspeito na minha toalha.
Concluída a busca e reconhecimento, Le Petit Escargot, deveria ter sido esmagado logo à primeira hipótese.  Mas coloquei-o sobre uma ramada de hortelã que tenho num dos vasos de ervas aromáticas do meu também minúsculo jardim de varanda larga.

E escrevo este texto banal, porque, mesmo nas coisas mais insignificantes, vamos alterando formas de estar. O facto de me encontrar  longe  da aldeia, faz-me esquecer as vezes que eu maldisse destes predadores de alfaces tenrinhas e morangos da horta de minha mãe. Agora, entendo a minha amiga Alex que tem umas quantas galinhas velhas apenas para darem ovos e se recusa definitivamente a fazer delas umas boas canjas caseiras.


Mz
Imagem: Galeria de obras de Fernando Brotero
Pintor e escultor colombiano


20 comentários:

✿ chica disse...

Lindo texto, faz pensar...Mudamos os olhares,não?Mudamos os pensares também! beijos,chica

Mz disse...

Chica,
banal, mas deu para reflectir.

Bjs

Mariavaicomasoutras disse...

Menosprezar pequenas particularidades da vida, só porque algum dia nos foram prejudiciais, é o mesmo que parar no tempo e recusar a mudança adormecendo o pensamento e cegando o nosso olhar!

Bjinho*** MZ pelas tuas sentidas crónicas.

Mz disse...

Maria,
existe uma forma de cegueira que funciona como um bloqueio ao entendimento e respeito pelos outros. Mas isto já não é um ponto minúsculo é um buraco que gera conflito na sociedade.

Obrigada,
Bj*

Mariavaicomasoutras disse...

Mas que muitos se "recusam" a ver porque têm receio de ser engolidos por essse "buraco negro" e o pior cego não é o que não vê mas sim o que não quer ver!
*

Mz disse...

Maria,
concordo!

Lilá(s) disse...

Então entendes bem a minha alegria cada vez que uma flor abre no meu jardim, ou o 1º tomate amadurece como foi o caso hoje, e os figos que começam a ficar cheios? e mais não digo senão vais a correr atacar o quintal da tua mãe rsrsrsr
Bjs

Mz disse...

Lilás,
no teu quintal, estes bichinhos andam distraídos, só pode, é tudo tão lindo!

Bjs :)

Luís Coelho disse...

Um texto que me faz pensar,mas ainda assim existe bicharada que se propaga em tempo luz e que destroem toda a horta e pomar.

Uso cá em casa as célebres armadilhas que muitos aplaudem mas ainda assim não dão os resultados desejados.
As melgas ...ais as melgas....são tantas, tantas...

Mz disse...

Luís,
os caracóis não se apanham com armadilhas :) é com cinza da lareira, espalhada já fria pelas hortaliças e frutos rasteiros. Sabia?
:)

O Profeta disse...

Como se ama uma planta que não floriu?
Como se ouve um coração em silêncio total?
Como se sente uma dor que a paixão desenhou?
Como se alcança o Sol quando o dia morreu, acabou?

Um Outono invadiu esta ausente Primavera
Povoei esta ilha com palavras em baixela de poesia
Encontrei uma casa da manhã com verdade e revolta
Construi a claridade com fogo de uma chama já morta

Bom fim de semana

Doce beijo

Mz disse...

O Profeta,
...que seja num dia que já é Verão.

Obrigada por partilhar a sua poesia

manuela baptista disse...

como eu te percebo Mz

qualquer bicharoco que apareça em casa eu, com toda a paciência, devolvo-o ao quintal e às folhas verdes

e

banal é que não é o texto! tem a simplicidade das coisas importantes

um abraço

Rafeiro Perfumado disse...

Aos pontos negros costumo espremê-los, não dissertar sobre eles... ;) Beijoca!

Mz disse...

Manuela,
sim, também concordo.

Outro [abraço]!

Mz disse...

Rafeiro,
e um cão conseguia lá dissertar, sobre um ponto negro!

;) bj*

João Roque disse...

Tantas vezes, reagimos com a "rotina" à presença destas situações...
Devo admitir que não teria pensado em fazer o que fizeste, mas deixaste-me a pensar, o que já não é mau...

Mz disse...

Então, não João?
Mediante os lugares e o tempo onde permanecemos adaptamo-nos e transformamos formas de estar.

Sobre a aldeia, acho que quando lá estamos, comungamos de uma forma muito mais realista em relação à sobrevivência e proteção das culturas.

Os caracolitos comem as nossas alfaces, roem os nossos moraguitos, e nós, rogamos-lhe pragas e acabamos com eles... ponto!
Temos a consciência que os animais se criam para comer e têm de ser mortos... inevitávelmente!
Não existe um botão que se carrega e aparecem os alimentos no supermercado sem qualquer tipo de violência.

Somos predadores. Engordamos em gaiolas, para matar e comer. Essa é a verdade.

Rita Norte disse...

Por vezes, são os pequenos caracóis que aparecem de forma inesperada que nos fazem sorrir num dia cinzento.
A natureza dá pequenos grandes ensinamentos a quem os souber receber.

Mz disse...

Coisas simples, como este ponto negro... e as "figurinhas" que fazemos ;)