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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O Absurdo namoro à janela.




Nas cidades, o namoro à janela regressou do passado. 
Voltou para namorar as ruas, as poucas pessoas que passam e, os automóveis enquanto é dia. O absurdo namoro dos confinados que espreitam as ambulâncias da noite - rasto de luz azul como céu de morte. As insónias, e o paradoxo inocente da bisbilhotice do medo. 

Um namoro impaciente que torna as noites mais longas de sempre num silêncio de paz roubada. Então, alguém canta um fado, ou uma canção da moda. O som de um piano, uma guitarra, um acordeão, um saxofone, uma pandeireta e, faz-se um baile à janela. Soa na noite um coro de alegria em tempo desafinado.



(clica nas fotografia para melhor imagem)

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Junho e Santo António.



Falámos de ti nas escadinhas do largo. Estavas como sempre com as flores aos pés, realçavam as alcachofras; grandes capítulos florais, fofos e lilases - que as moças da mordomia querem dar-te esses mimos. Tu, pequenino e tosco como te viram as mãos que te esculpiram, carregas o peso do calcário e das preces que te fazem. Lascado e quebrado de velhice, genuíno. Queremos-te assim, só importa a fé em ti para apaziguar os nossos medos; encontrar paz nesta espiritualidade. Estávamos então contigo, lá no largo num chão de erva-doce esmagado pelos passos que dávamos, distanciados e de máscaras no rosto. Não viste nos nossos lábios o sorriso triste que guardávamos, e nós não trouxemos para casa os perfumes de procissão.

sábado, 21 de março de 2020

Birdwatching (9) e a paciência do confinamento.


A observação de aves tem um lado solitário em que nos conectamos com a natureza e ficamos quietos. Depois do avistamento de uma espécie, os nossos passos são lentos, os movimentos suaves. Camuflamo-nos e esperamos. Pratica-se a paciência. Ficamos confinados. Queremos a melhor captura fotográfica. 

Estabeleço aqui um certo paralelismo com o que a humanidade hoje é confrontada. Forçados a praticar essa paciência, o confinamento para a sobrevivência a esta guerra até vencer o inimigo invisível, a quem já todos chamam, o Cisne Negro. Coronavírus COVID-19.

Pato-Real (Anas platyrhynchos) fêmea

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Outubro Rosa



Rosa,
agora que é outubro.
Espalho nesta cor, flores como laços que abraçam as mulheres.
A intenção do chamamento,
do alerta.
A prevenção.


*Outubro, mês internacional de Prevenção de Cancro da Mama*

quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de Abril - 45 anos de Liberdade



Ergo o meu cravo,
porque sou
 da liberdade
que outros conquistaram.

Obrigada.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Assim vai o Natal.



Não é por mal o "nascer" que o homem quer; as luzes e os brilhos da cidade, um bocadinho de felicidade, a alegria. A fantasia de se ser. O ter, inevitável - um pequeno aconchego do excesso, e o Menino, usado, chutado, esquecido. Sempre um turbilhão de gente, na quadra do Menino. Haverá também, a lembrança, esse despertar do propósito, o querer de uma Luz que aquece os corações. 
E assim é Natal. 
Assim vai o Natal.




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Postal de Natal

 Texto e fotografia,Mz

Aos meus queridos bloggers, deixo a minha árvore desfocada e umas coisinhas banais; as palavras, as luzes, e a tecnologia a aquecerem-nos a alma de gente que somos aqui na blogosfera. A mensagem é que nos foquemos na essência desta quadra; uma reflexão consciente de que o bem será sempre a esperança do mundo e inicia-se sempre em cada um de nós, sem fronteiras e sem credos. 
Depois, também a magia, como se fosse uma escrita colocada nas mãos do carteiro a alcançar as lembranças dos votos, e das prosperidades antigas. Era assim para mim; tudo tão cheio de pouco e tudo tão magnífico, quando, junto com os desenhos quase infantis a evocar o nascimento, os envelopes e os postais espalhados pela mesa com as purpurinas agarradas às mãos na esperança de algo simples e tão extraordinário. Estar longe e próximo. Receber e enviar um Postal de Natal.



Feliz Natal.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Crisântemo - destino solene

Texto e fotografia,Mz




Deste Outubro castigado, onde lhe fugiu a estação, o céu não chora a chuva que lhe pertence. E na aldeia dos arrozais, do vinho e do milho, descobri as flores. As mulheres, no meio delas, recordam-me das pragas do fim do mundo. Falando baixinho para não despertar a "Besta", vão remoendo calmamente o estado apocalíptico do tempo, enquanto, delicadamente, colhem largos molhos destas flores e eu faço o registo de uma beleza traída.

Tão belos os Crisântemos, e, que destino tão solene e tão triste, por florirem em tempo de finados, aqui em Portugal. É a flor das lágrimas.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Férias Vintage


Texto e fotografia,Mz
(P. Rocha)



As férias grandes. Uso aqui este termo; férias grandes. Fazem-me lembrar outros tempos, outros Verões, aqueles em que tudo  parecia interminável. Saco de pano cheio de sandes, a manta na areia, o nevoeiro cerrado, mas maravilhoso, o sol a escaldar sem nos darmos conta, a pele enrugada de tanta água. Os jogos de cartas e o tabuleiro de areia, com pedrinhas e conchinhas se iam ganhando jogos até o sol quase se pôr. Todos os sonhos paravam ali. A eterna juventude. E retomados os sonhos, muitos anos de verões, fugimos todos para conhecer mundo, a intelectualidade deste, a história nas praças, nos monumentos, nos museus. A confusão dos aeroportos, as malas, os chapéus de turistas e mochilas carregadas de magnetes para o frigorífico, que os há em todos os países e coleccionadores também. A praia já é outra, contudo, querendo sempre a antiga, a vintage, com muito azul, muitas riscas, com mais protecção, mais cuidados, mas sempre azul, muito azul, e o repouso que o corpo pede.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Todos bem-dispostos


Texto e fotografia,Mz
(Évora)


As conversas e a arquitectura da cavaqueira que tanto bem nos faz, é uma arte espontânea, basta aparecer um ou dois interlocutores mais efusivos para se tornar uma bela noite. Nós à mesa num alarido desordenado, exteriorizando, como magia, imagens assentes nas vivências e, até alguma especulação pelo meio. O mais fervoroso a fazer-nos rir com o seu jeito fantasioso que tem de se explicar, porque da boca dele, as palavras saem como filme. E logo, a memória dos nossos pais a namorarem ao som de canções românticas dos anos 60/70 e, os nossos filhos que nem sabem metade das angústias que temos só de sabermos que já fazem sexo. Os filmes que fazemos das memórias boas e das angústias presentes, que com um copo a mais, nos levam às lágrimas de tanto riso. Depois, descemos a rua, cansados e cheios de felicidade.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Turismo industrial (1)

 Texto e fotografia,Mz


Longe da natureza, das aldeias, das vilas e das cidades, deixo-vos com um resumo fotográfico em três partes do mundo da industria dos pavimentos cerâmicos. E esta em especial, porque tive o gosto de visitar no aniversário dos 40 anos de actividade. Deslumbrou com a grandeza da sua tecnologia, design e dimensão e por isso, dou início a uma visita sobre rodas em que os motores desta dinâmica movem-se com um objectivo: o sucesso!


Revigrés, constituída em 1997com  produção de revestimentos/pavimentos em grés porcelânico está  presente em 50 países  com 280.000 m2 dos quais 140.000 m2 em área coberta,correspondentes a 44 campos de futebol.

domingo, 30 de abril de 2017

Postal e uma crónica de Abril

Texto e fotografia,Mz


É fácil plantar cravos – dizem-me as mulheres da aldeia enquanto me pedem os talos dos molhos que levei à sepultura do pai. O pai nunca foi à tropa, nunca lutou no Ultramar devido a um acidente que lhe deixou uma pequena deficiência no braço. Disseram-lhe que lhe atrasava as rajadas de metralhadora. Livrou-se da guerra. Culto e conhecedor de outras políticas, nunca se resignou à ditadura, tornando-se num outro guerreiro e, entre muitos, um dos perseguidos da PIDE - Polícia Internacional da Defesa do Estado Português à época. Frequentava as reuniões na penumbra da noite e as detenções foram acontecendo. A mãe rezava, nessas noites. Quando aconteceu o dia da libertação, a alegria foi fogo que lhe vinha da alma, como se lhe nascesse outro filho. A mãe chorava, porque não lhe saía do pensamento que tamanha conquista se poderia converter numa guerra civil. O caminho, com imperfeições fez-se com rumo e paz e eu, dou graças e festejo. Planto cravos no jardim, vermelhos como devem ser para que se alongue eternamente a memória destes que desfilaram altaneiros nos canos das espingardas em dia de revolução. A revolução que se converteu em poesia e sem haver comparação, ocorre-me que tivemos cravos e não rosas de Hiroxima.



memórias da revolução de Abril
Afectos e dúvidas




segunda-feira, 10 de abril de 2017

Fé sem preconceitos e boa disposição





 Texto e fotografia, Mz


Um sapateado suave em sapatos de domingo, fizeram o som de acompanhamento às Hossanas da procissão. Corria uma aragem com aroma de alecrim nos ramos colhidos dos jardins e dos quintais, ou mesmo, das beiras da estrada, umas pontinhas de oliveira. Eu assim o fiz e fui com as tias, com a minha fé plena e assumida, sem vergonha, porque na sociedade de hoje, tudo passa pelo escrutínio do preconceito. De verdade, é mais fácil ser ateu, irreligioso, ou espiritualista. E neste contexto de opções válidas ao ser humano, assinto que me faz bem acreditar numa demanda constante do mistério, que é Deus. Neste aparte, continuo esta crónica contando-vos que, depois da missa, as tias, em todos os domingos possíveis, é quase obrigatório uma paragem no salão de chá, onde se combinam caminhadas, encontros semanais e, onde também se fala dos filhos, dos netos, almoços de domingo e anedotas. Na alegria do convívio deste Domingo de Ramos, as tias não sabiam onde colocar os raminhos benzidos, se no colo, ou no chão. E nesta atabalhoada indecisão, por debaixo da mesa tocavam-me os ramalhetes nas pernas provocando-me cócegas e risos.



Afectos e dúvidas