segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tempo de castanhas





Ainda há pouco estava a floresta viçosa, farta de verde. Colhi amoras, urze, ouriço fresco de castanheiro e outras coisas que trouxe para casa na minha bicicleta vermelha. Fiz um arranjo floral. Depois, passados poucos dias, voltei lá. Muitas folhas perdidas pelo chão, outras a balouçarem desmaiadas em galhos de pinheiro manso e no souto, os ouriços abertos e murchos, já vazios de castanhas. A floresta farta de morte a mostrar como é áspera a natureza. Bestial harmonia. O que eu queria era um chegar lento de chuva, trazendo o sol há cavalitas. Ora o sol, ora a chuva e só de vez em quando, um vento mais forte para secar a roupa no estendal. Já não há transição suave nem degradé de estações. Chove a cântaros e no ondular das chamas da lareira velha, confunde-se o trovejar dos céus com o rebentar de uma castanha ou outra. Vão inchando de calor num inferno de brasas que se atiçam a ferro e é nesta brutalidade antiga que hoje se declara a abertura de um bom vinho do porto.


mz

Regresso da Fábrica de letras
com o tema: Castanhas


(fotografia:mz)

domingo, 9 de novembro de 2014

De passagem







No meio do cheiro a flores, dos ecos e murmúrios, pensava no desejo da mãe que muito tempo antes de fazer oitenta anos, dizia sempre que depois de fechada já não a abrissem mais. E assim se cumpriu. 

O Frei tomou da palavra e transformou a retórica numa visualização simples. 
E comparou a vida a uma tenda. Uma tenda não é um castelo, não é uma mansão nem mesmo a mais humilde das casas de alicerces enraizados à terra. Uma tenda não é uma habitação permanente. Monta-se e desmonta-se como se vive e se falece. E durante o tempo em que permanecemos na tenda, todas as fragilidades passam por nós. Ela é frágil, verga com o vento, desmancha-se com uma tempestade. E o vento, a chuva, o sol, o frio e todas as adversidades dos elementos tornam-se nas adversidades da vida humana.


mz




fotografia: aqui

sábado, 1 de novembro de 2014

Noites de fantasia





- Escuta meu menino, para o ano podes ir também.

Ontem, ainda não era hora de ser noite mas já era assustadora. O rio rendeu-se num negro poiso de aves parecidas com agoiro, negrumes rasgando o céu com asas cor de viúva. Não eram corvos nem corujas porque a noite nos engana. Eu não gosto desta noite.
Chalaça dos horrores, cabelos de bruxa e lábios de morte. O vento quer ser sopro de fantasma. O som quer trazer-nos uivos arrastados e até as estrelas, mostram vontade de serem círios de cemitério em campas de defunto. 
Experimentamo-nos e desafiando o medo, transformamo-nos em bichos estranhos. Amanhã tudo nos parece ridículo.

mz



fotografia:mz

domingo, 26 de outubro de 2014

Suborno do Céu





Quando eu quero, o céu é o destino.
Alvo, negro, azul celeste, é um anjo dissimulado, uma espécie de ladrão de homens bons. Perdoo-lhe porque num improvável momento tempestuoso, pode dar-me a visão perfeita do arco iris tornando-se uma prenda de suborno que me amacia a alma. Deste modo, o ladrão de homens bons dá-me um sorriso escancarado de sete cores e eu volto a sonhar. O sonho dá-me uns sapatos da cor do sol exageradamente altos para quase, quase tocar as nuvens. Depois, o sonho dá-me outro e mais outro par de sapatos cada vez mais altos até se esgotarem todas as cores do arco iris onde eu, incrivelmente alta e em pontas, consigo chegar ao meu amor. Num momento, estamos os dois, eu e o homem que o céu me roubou.




mz




(fotografia:mz)

domingo, 12 de outubro de 2014

A partida





Serás como estas nuvens cinzentas de hoje.
Vestido a preceito e fazendo jus ao teu fato pardo costumeiro, chegarás com ares de outono. Semelhante a um clássico filme sem cor, recusar-me-ei a ver-te com o rosto pálido de lua e imaginarei que nesse olhar fechado, levarás um sopro de frio nórdico que me roubará a tua cor. Os meus olhos, fixos na tua camisa branca de mortalha, será o mais parecido a uma nesga de sol, e o meu maior pesadelo terá ares de aconchego, porque me faz crer que levarás uma espécie de sol morno. Um eterno sol de outono que nunca te deixará ser gelo nem inverno, porque aqui, continuarás a ter sempre amor. Neste turbilhão de pensamentos, o que me ocorre incessantemente, é a curiosidade de saber se te despediste do Verão. 

mz



(fotografia:mz)