segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tempo de castanhas





Ainda há pouco estava a floresta viçosa, farta de verde. Colhi amoras, urze, ouriço fresco de castanheiro e outras coisas que trouxe para casa na minha bicicleta vermelha. Fiz um arranjo floral. Depois, passados poucos dias, voltei lá. Muitas folhas perdidas pelo chão, outras a balouçarem desmaiadas em galhos de pinheiro manso e no souto, os ouriços abertos e murchos, já vazios de castanhas. A floresta farta de morte a mostrar como é áspera a natureza. Bestial harmonia. O que eu queria era um chegar lento de chuva, trazendo o sol há cavalitas. Ora o sol, ora a chuva e só de vez em quando, um vento mais forte para secar a roupa no estendal. Já não há transição suave nem degradé de estações. Chove a cântaros e no ondular das chamas da lareira velha, confunde-se o trovejar dos céus com o rebentar de uma castanha ou outra. Vão inchando de calor num inferno de brasas que se atiçam a ferro e é nesta brutalidade antiga que hoje se declara a abertura de um bom vinho do porto.


mz

Regresso da Fábrica de letras
com o tema: Castanhas


(fotografia:mz)