quinta-feira, 18 de junho de 2020

Junho e Santo António.



Falámos de ti nas escadinhas do largo. Estavas como sempre com as flores aos pés, realçavam as alcachofras; grandes capítulos florais, fofos e lilases - que as moças da mordomia querem dar-te esses mimos. Tu, pequenino e tosco como te viram as mãos que te esculpiram, carregas o peso do calcário e das preces que te fazem. Lascado e quebrado de velhice, genuíno. Queremos-te assim, só importa a fé em ti para apaziguar os nossos medos; encontrar paz nesta espiritualidade. Estávamos então contigo, lá no largo num chão de erva-doce esmagado pelos passos que dávamos, distanciados e de máscaras no rosto. Não viste nos nossos lábios o sorriso triste que guardávamos, e nós não trouxemos para casa os perfumes de procissão.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Cerejas e cadilhos de vida.



As cerejas deste ano comem-se em toalha de luto, eu sinto-lhe um vermelho negro na sua doce acidez. As cerejas deste ano, são arrecadas pesadas, pingentes retorcidos, rendilhados antigos com meneio de fado. Comem-se. Comem-se cerejas de boca cerrada enquanto se murmuram cadilhos de vida.


domingo, 10 de maio de 2020

Preciosidades.



As primeiras rosas do quintal e os romances de sempre, trazem memórias das tias. Agora velhinhas e confinadas nas suas casas, dizem que têm olhos de lágrimas sempre que olham nas paredes, os retratos de família. A saudade. A saudade e o medo de voltar a sair e de não conseguirem caminhar direito pelas ruas com os seus sapatos de saltinho.

terça-feira, 28 de abril de 2020

11 Anos de Blogue.

Quem chegar hoje aqui, tem de festejar. 
Fiz um piquenique. 

Sentem-se, fiquem de pé, saltem, façam modinhas de roda - sem toque, e comam com os olhos. 

Sim, com os olhos, porque as minhas mãos tocaram em tudo o que estão a ver. 
Pestanejem, e deixem criar água na boca. 
Imaginem o bolo no palato, sorvam um pouco de chá quente, alegrem-se com as perpétuas roxas, 
e procurem memórias de naperons. 

Linhas e laçadas.
 Paciência. Muita paciência. 

Obrigada a todos os que passam por aqui. Aos primeiros, aos mais antigos, aos esporádicos, aos mais recentes, aos  que me inspiram, aos que me referenciam.
A todos. Muito obrigada. Eu, Afetos e Dúvidas continuarei por cá.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Semear Alegria




Aqui, neste meio virtual, semeio esta alegria de cor com a esperança de deixar uma luz ao vosso olhar. É uma bênção poder fotografar uma seara de Pampilhos ainda em tempo de isolamento social. Deixo-vos este estado de graça de se viver na aldeia, como quem folheia as páginas de um livro maior de seu nome Natureza.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Abril em casa e o confinamento.



No silêncio deste confinamento generalizado, ainda sentimos que o melhor lugar é a nossa casa. O desafio de fotografar e passar uma mensagem de harmonia do que vem de fora, e a capacidade de a transformar dentro das nossas paredes, é um desafio. Deixo-vos uma espécie de cabaz fotográfico muito caseiro dos meus dias, num sítio em que o alimento puro passa pelas palavras, pelo emocional e espiritual, onde o aconchego acontece e também se come de tudo um pouco. 


sábado, 21 de março de 2020

Birdwatching (9) e a paciência do confinamento.


A observação de aves tem um lado solitário em que nos conectamos com a natureza e ficamos quietos. Depois do avistamento de uma espécie, os nossos passos são lentos, os movimentos suaves. Camuflamo-nos e esperamos. Pratica-se a paciência. Ficamos confinados. Queremos a melhor captura fotográfica. 

Estabeleço aqui um certo paralelismo com o que a humanidade hoje é confrontada. Forçados a praticar essa paciência, o confinamento para a sobrevivência a esta guerra até vencer o inimigo invisível, a quem já todos chamam, o Cisne Negro. Coronavírus COVID-19.

Pato-Real (Anas platyrhynchos) fêmea

terça-feira, 17 de março de 2020

Dente de Leão



Como plumas suaves, um sopro e fogem-lhes os filhos do colo.



sábado, 14 de março de 2020

Este chão.


O chão é de flores silvestres, fresco e fantasioso até. Aparenta o brilho de diamantes, safiras, esmeraldas, sedas caras e veludos. Tudo humano neste imaginativo, quando a preciosidade é, apenas este frágil florir.


segunda-feira, 9 de março de 2020

Poesia nos meus olhos.




Pássaros e flores; poesia de março.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Flores na chuva


Não parece terreno, mas divino, este nascer da terra negra. 
Sol de pétalas frágeis, 
triunfo de vida curta.
Flores de março que nascem na chuva;
destemido vir.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020




Vi a minha mãe a rezar à janela. Lia uma oração, e beijava as letras da mesma forma que beija os filhos. Lia e beijava, lia e beijava. Nos intervalos, amaciava o peito e lia, e beijava… lia, e beijava. Da janela, árvores, mas aos seus olhos, fé. Vi a minha mãe a rezar à janela.

Piódão, aldeias de xisto - Portugal


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Birwatching, (8) Inverno.


Quando o tema são aves, a observação pode até ocorrer sem sairmos de casa. As grinaldas de Natal foram recicladas e penduradas nas árvores do quintal onde vamos colocando fruta, pois este tempo de inverno é escasso de alimento para os passarinhos. E desta forma, nem sempre tão natural da vida selvagem, eles vão chegando em dias de sol e de chuva.


Toutinegra-de-barrete-preto (Sylvia atricapilla) fêmea
*as fêmeas têm o barrete ruivo, nesta diferença só os machos têm o barrete preto aqui
Pardal-comum (Passer domesticus) (macho)
Chapim-azul (cyanistes caeruleus)



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Aguarelas de inverno



Vestem-se assim,
 - as árvores -
 um sopro de pó, uma transparência colorida na dureza do inverno. 
Corajosas, 
agarradas à terra abrem os braços aos pássaros enquanto esperam os rebentos
 .seus.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Lua do Lobo e o Eclipse Lunar Penumbral



Máquina, tripé e uma corrida ao ponto mais alto da aldeia. Não tivemos tempo para meditações, nem calma, nem mantras. Não visualizámos a estrada da vida que queríamos para os próximos meses. Não tivemos olho para o fumado da lua - não soubemos medir "o não brilho" - desta Lua do Lobo. Regressámos devagar e com restos de sol.

Eclipse Penumbral da Lua
Lua do Lobo

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

O nascer do sol e um Feliz Ano 2020!



Enquanto quase todos ainda dormiam, descemos nós, o Vale, sussurrando inconscientemente, como se o Sol necessitasse de silêncio para acordar por si – sem sobressalto. Apressámos a caminhada dentro da neblina para festejar a vida, e partilhar o nascimento da luz. E é neste registo que vos trago o nascer do sol do dia de hoje, e também, para vos dar as boas vindas ao novo ano. 

Que esta claridade tão suave e tão ténue nos serene todos os dias. 
Feliz Ano 2020!