terça-feira, 27 de novembro de 2012

Correio!



O carteiro é um homem simpático, gorducho. Um baixote com rosto de peixe-lua mas de sorriso aberto. Bonacheirão é uma palavra que lhe assenta na perfeição. Hoje cruzámo-nos, e ele, corado de pimentão, estende-me a mão com fineza. Em jeito de desculpa solta um sussurro já arrependido...
- Tem uma encomenda. Vem de Lisboa e tem O Rio no remetente.
- O Rio?
Soltamos uma gargalhada cúmplice e, num dueto desafinado aventámos:
- Que encomenda estranha!
E era o Rio. O Rio  de Janeiro embrulhado em rosa, aquela cor dos afectos. Um mar distante que se faz perto por singelos gestos carinhosos. Um cheiro de Café com Canela, de morena com graça que vem e que passa, mas sem  eu a ver. Desencontros que se acalentam com a doçura e apreço de um laço.
O carteiro trouxe-me uma prenda da Carolina aqui que está de visita a Portugal. Uma prenda trazendo a emoção, o pão e o açúcar que alimenta o entusiasmo humano.
Mz
Imagem: Paul Klee

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Escutem...



Era uma espécie de ritual cuidando não deixar ninguém para trás. Um excesso de zelo para com todos, evocando a Deus proteção por tudo e por nada. Tornou-se num acto banal deixando de enternecer e apaziguar, mesmo quando os lembrados necessitavam de palavras protetoras, ou em dias de mais desespero, uma oração. Todas as cartas que lhes enviava tornaram-se num chorrilho fanático até à indiferença. Até que, sem se aperceberem, deixaram de o ouvir. Queriam amizade e não a devoção explícita como um veículo do culto. O emissário das cartas era um fanático religioso. Um dia, despiu a carapaça e lançou a fúria, exclui-os das orações e remeteu-se ao silêncio. Deixou de enviar as palavras protetoras e abandonou a amizade. Os outros, sentiram alívio daquela fé falsa e exacerbada, mas não o excluíram das conversas.




Mz

Tela: Grant Wood



quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Apenas a Alma




Parece que hoje, o sol foi teu amigo. Iluminou a tristeza para lá de tudo o que é luto. Teve a gentil cortesia de nos iluminar e aquecer-nos junto a moradas de pedra. Se nos estiveres a ver, deves sorrir por esta fugaz primavera que surgiu pendurada de seda negra. Os murmúrios neste dia, foram de lamento por afundarem o teu corpo desmembrado, agora, de vida. Para lá dos muros brancos, muitas sombras negras de quem já não se veste de preto. Apenas a alma.
Mz

Imagem: Tela de Graça Morais

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Fábrica de Letras


É difícil escrever por encomenda. É que as palavras não andam por aí à vontade do freguês como quem vai às compras, pega no carrinho e toca a andar, toma lá um tema e desenvolve.
Faz-te à escrita!
Escrever algo com sumo, dá trabalho. E, para quem não saiba, não se apanham ideias como quem apanha fruta da árvore. É preciso ter queda sem se cair na tentação de nos desviarmos do que a fábrica nos pede. A gerência está atenta, mas não usa lápis azul, por isso, dá-nos liberdade. Não censura e é imparcial. Eu gosto disso. Contudo, a fábrica limita-nos a criatividade com aqueles temas impostos. Temos de nos contentar apenas com as palavras em paletes, esse material guardado à espera de ser esgotado. Estantes de letras em stock, separadas em caixas de A a Z. Letras e mais letras obedecendo à gestão de regras administrativas. Tudo registado para que não faltem as quantidades certas a produzir textos e reflexões à medida de uma encomenda. Estão a imaginar uma fábrica assim? Ela existe e eu escrevo a encomenda nº 44.
Mz
Fábrica de Letras
Imagem: Pintura de Fernando Botero