segunda-feira, 19 de maio de 2014

São Contos





No embalo do comboio da linha, lia o rapaz à sua paixão que não se inibia de lhe dar beijinhos e mordidelas. O livro, muito velho, cobria-se de capa papel pardo com título escrito à mão em duas linhas - Fialho de Almeida – Contos. Quem o escreveu, prolongara o traço do T por toda esta última palavra como se quisesse abraçar todo o seu conteúdo. E ia lendo páginas em voz alta, este apaixonado romântico a fazer lembrar aqueles homens antigos. Voz bem colocada, belo cabelo de ondas largas, bem cortado e barba espessa, arruivada, uns pontinhos de sardas a salpicar a sua pele que era tão branca. Ela deixou os beijinhos para se aconchegar, poisando a cabeça no seu ombro de trovador de brinco na orelha e sorria feliz. Uns dentinhos brancos em rosto de chocolate, olhar doce a contrastar com o vinho na cor do lenço, muito mãe áfrica a segurar os cabelos de mil tranças. Rodeados de gente, viajavam sozinhos naquele comboio. E eu detestei um velho senhor que incomodado, resmungava porque tinha de escutar poemas.
- Não são poemas Senhor, são Contos de Fialho.


mz


imagem: fotografia do blogue, 
Diário de Lisboa -The Lisbon Diary


12 comentários:

João Roque disse...

Há contos que são mesmo poemas...

mz disse...

É verdade, João.

Mariavaicomasoutras disse...

Se o comboio fosse dos modernos a história que nos trazes não ficaria tão rica...mas, completo que a figura de Fialho se reforça nesta sua afirmação: "«Dada a ignorância e o desmazelo relaxado, que foi o que a Monarquia legou às classes médias, dadas as tendências vaziamente exibicionistas, que foi o que o partido republicano deu às multidões, a República, como forma de governo, há-de reproduzir todos os fracassos da Monarquia... Na essência, o País ficará o mesmo. Que digo eu? Ficará pior.» ( http://www.vidaslusofonas.pt/Fialho.htm#8_-_Saibam_Quantos,_Fialho_de_Almeida,_Lisboa,_1912.)

Incrível o visionamento das coisas que existia no passado em contraponto com a cegueira dos nossos tempos.

Bjinho

Helga Piçarra disse...

Saudades de andar de comboio e de me embalar pelos livros. Quem sabe não me cruzaria com o rapaz ruivo e a mãe áfrica... incomodada de certo não ficava :)

mz disse...

Mariavaicomasoutras,
grandes homens e grandes pensadores.

As monarquias estão iguais às Repúblicas, em pouco ou nada diferem.

Bjnhs

mz disse...

Helga Piçarra,
quem sabe, quem sabe...

:)

Laura Santos disse...

Até parece cena de filme!...:-)
E ainda há quem se possa sentir incomodado com revelações de ternura...em poemas ou contos... Poesia era a relação entre esse casal colorido, em que o ruivo dele se cruza em simbiose perfeita com a bela negritude dela.
Um episódio muito bonito.
xx

manuela baptista disse...

sim, detestamos esse velho senhor incomodado

que tão pouco entende de Contos e de amor

quadro bonito, este teu, Mz

mz disse...

Fiquei surpreendida e maravilhada com a cena :)

xx

mz disse...

Manuela,

a voz era melodia

entre os solavancos do combóio da linha,

e o velho senhor nem distinguia

a prosa da poesia


Abraço

Maria Silva disse...

Quem hoje sabe quem foi Fialho, um aprendiz de farmácia que acabou virando escritor?...
Os antigos, porque muito poucos novos sequer ouviram falar dele...
Mas escreveu lindos contos, que foram encanto no tempo em que me ia formando como pessoa...

mz disse...

Apenas os intelectuais o procuram ler decerto.