quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Outono enganador





   De pescoço esticado e a cabeça elevada ao céu, um queixume de dor na cervical. Lembra-se de fazer suaves exercícios circulares e vai escutando os estalidos das sete vertebras que lhe sustêm a cabeça. Esquece a dor porque nem vale a pena cismar no que tem de mais certo, agora que as humidades voltam a entrar no corpo. Espreguiça-se como um gato e vai pensando como o Outono é enganador. No intervalo de um escrito e outro, este já foi sol abrasador e já foi vento. Trouxe enredos aos céus que tornaram pardacentos os dias e no infinito chapéu celeste cresceram bigornas gigantescas repletas de vida própria. Arremessaram-nos estes, com raios e trovões e os algerozes tornaram-se riachos a desembocar sem regra. Agora, o céu retrocedeu ao tom azul de Verão e o calor voltou a ser abrasador amadurecendo mais cedo as maças de inverno.
   Ontem, carregou uma dúzia de cabazes dessas, que agora lhe perfumam a despensa escura e fria, são para se ir comendo até depois do natal. Também é por isso que lhe dói a cervical, mas sente-se bem, quando, da dor resultam coisas absolutamente deliciosas. Ainda no seu espreguiçar, volta a elevar a cabeça para a copa de uma árvore e é uma bênção ver a bela e fogosa romã a rebentar descaradamente. 



Mz



Imagem: Tela de Armanda Passos
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16 comentários:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Na verdade têm sido dias de Sol que não parecem de Outubro.
As plantas desfolham-se, os terrenos secam, as pessoas queixam-se...
Colhem-se já as frutas do Inverno.

Eros disse...

Maleitas que poderiam ser perfeitamente mitigadas com Pilates... ;)

Mz disse...

LRCCoelho, eles dizem que é errado dizer que só fala do tempo quem não tem mais nada para dizer.

Mz disse...

Eros, Pilates é prática quase diária.

Laura Santos disse...

Que belo texto, Mz!
Identifiquei-me completamente com aquela dor na cervical...algo que tenho de forma recorrente, devido a um traumatismo craniano e cervical.
Gostaria de ter essas macieiras e romanzeiras para que ao olhá-las a dor ficasse instável como este Outono que tão bem descreveste.
Falar do que parece banalidade é muito difícil, e tu fá-lo na perfeição.
Gostei muito.
xx

Mz disse...

Não sei se as dores te passariam, contudo poderia ser uma boa terapia! :):)

É uma maçã ali, uma romã acolá, um raio de sol, uns pingos de chuva e as maleitas do homem. Mistura-se tudo, aconchega-se e deixa-se fermentar. Não se pode deixar crescer muito porque textos grandes espantam os leitores ;)

xx

luisa disse...

Enganador mas encantador. :) O pior é mesmo a dor.

Mz disse...

É mesmo!
:)

Rui Pascoal disse...

A minha relação com as romãs nunca foi correspondida, eu explico. Em tempos tive uma árvore que dava flores lindíssimas mas os frutos, esses nunca chegavam a vingar. No final quem se vingou fui eu...
Não tenho romãs... mas os dióspiros são de comer e chorar por mais.
:)

manuela baptista disse...

na minha casa era no sótão que guardávamos as maçãs,

é dos perfumes que eu mais gosto

e dos outonos encarnados e deste texto espreguiçado com um pouco de dor

um abraço, Mz

Mz disse...

Rui, foi uma relação estéril :)

Também adoro dióspiros, esse outro fruto de Outono!

Mz disse...

Manuela, o sótão também é um bom lugar para se guardar os perfumes da natureza :)

Mary Brown disse...

Mz é altura de apanhar a fruta. Este fim de semana apanhei algumas pêras, As amêndoas já estão até descascadas mas as poucas nozes, o Boneco (o cavalo) foi mais rápido que eu, comeu-as.:) Quanto à cervical, melhor nem falarmos nisso. Dói mas dá prazer ver depois o trabalho feito. Beijinhos

Mz disse...

Então o Boneco com as nozes à mercê não havia de as comer?

Grande Boneco!

;)

Bjnhs

Lilá(s) disse...

Também quero na despensa dessas maçãs aromáticas e romãs bem apetitosas! mas, dispenso a dor cervical...
Bjs

Mz disse...

Queres a fruteira cheia sem dores?
O-õ :)

Bjs