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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Pequenas joias.

 



Margaridas Africanas e Cavalinha - disse eu ao rapaz que gostava de flores. Calou-se. Um silêncio amuado e confuso, com olhos presos ao chão. Retornou curioso de sobrolho franzido questionando-me:

-Porque me mente se o que vejo, não me parecem flores?

- Então, e se te disser que elas nascem como pequenas joias, acreditas? Perguntei com voz sussurrante, como se o fizesse para quem acaba de acordar.

- Sim mm! - Disse o rapaz arrastando a afirmação, prolongando a sonoridade como se fizesse eco e, se tornasse bumerangue. Agitado de entusiasmo próprio de criança, prometeu que as guardaria no seu cofre de memórias. Deixou para trás a carranca e o amuo, e foi fotografar as flores com o olhar.


(clica nas fotografias para melhor imagem)


segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Tempo de castanhas



Ainda há pouco estava a floresta viçosa, farta de verde. Colhi amoras, urze, ouriço fresco de castanheiro e outras coisas que trouxe para casa na minha bicicleta vermelha. Fiz um arranjo floral. Depois, passados poucos dias, voltei lá. Muitas folhas perdidas pelo chão, outras a balouçarem desmaiadas em galhos de pinheiro manso e no souto, os ouriços abertos e murchos, já vazios de castanhas. A floresta farta de morte a mostrar como é áspera a natureza. Bestial harmonia. O que eu queria era um chegar lento de chuva, trazendo o sol há cavalitas. Ora o sol, ora a chuva e só de vez em quando, um vento mais forte para secar a roupa no estendal. Já não há transição suave nem degradé de estações. Chove a cântaros e no ondular das chamas da lareira velha, confunde-se o trovejar dos céus com o rebentar de uma castanha ou outra. Vão inchando de calor num inferno de brasas que se atiçam a ferro e é nesta brutalidade antiga que hoje se declara a abertura de um bom vinho do porto.


mz

Regresso da Fábrica de letras
com o tema: Castanhas


(fotografia:mz)

domingo, 26 de outubro de 2014

Suborno do Céu





Quando eu quero, o céu é o destino.
Alvo, negro, azul celeste, é um anjo dissimulado, uma espécie de ladrão de homens bons. Perdoo-lhe porque num improvável momento tempestuoso, pode dar-me a visão perfeita do arco iris tornando-se uma prenda de suborno que me amacia a alma. Deste modo, o ladrão de homens bons dá-me um sorriso escancarado de sete cores e eu volto a sonhar. O sonho dá-me uns sapatos da cor do sol exageradamente altos para quase, quase tocar as nuvens. Depois, o sonho dá-me outro e mais outro par de sapatos cada vez mais altos até se esgotarem todas as cores do arco iris onde eu, incrivelmente alta e em pontas, consigo chegar ao meu amor. Num momento, estamos os dois, eu e o homem que o céu me roubou.




mz




(fotografia:mz)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Mar calmo





- Mergulhaste?
- Sim.

Não fantasies que o mar tem respiração de criança e que se diverte contigo a fazer bolhinhas de espuma branca quando chega aos teus pés. É ilusão. Não te iludas com a preguiça que tem hoje o mar, apenas porque se está a deixar embalar pelo sopro suave do vento. É o feitiço da lua que o esconde num vestido de folhos inocentes de cor azul-turquesa. Esquece que o fundo do mar não tem som, nem sustos, nem remoinhos que te engolem até te afogarem de ignorância nessa tua tão inocente e humana paixão.

mz


fotografia:mz



domingo, 20 de julho de 2014

Tesouros





Tocam-nos como um sol. Em jeito de prece, uma reza mágica, mãos em oração e a menina enfeitada. Uma coroa de rosas no cabelo. Papel arame e vida. Tudo simples. Ao pai, tudo precioso, e transforma-se a menina num tesouro.
Na coroa, tem temperado o aço. As rosas, papel machê, são agora rubis. A cor que se diz ser do amor e a força em sementes num aro de ternura - uno -  cobrindo a terra e o topázio imperial dos cabelos.
E a magia contínua  reaparece aquosa no olhar da menina, um lago de diamantes e safiras suplicam apenas o que só os dois conhecem.

E temos um retrato e um tesouro, um guarda-joias delicado. E naquele jeitinho de prece, assim é a menina que na alegria de um ensejo, desvenda pérolas no sorriso.

mz



fotografia: blogue Diário de Lisboa
Amélie Au Téâtre - Lisbon Diary