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quinta-feira, 18 de março de 2021

Conversas ao postigo.

 


Com os sorrisos escondidos em máscaras de pintinhas, plissam os olhos de alegria e oferecem-me alfazema. Contam-me as tias. As minhas tias confinadas. Contam-me que acariciam vezes sem conta os gatinhos que lhes sobem para o colo. A calçada da entrada, já tem rasto de chinelo, uma estradinha arada de passos cansados, como as batidas do coração. Dizem ter os sapatos de saltinho, guardados em bolsas de pano cru, por causa dos bolores. Enfeitam os cabelos com os rolos antigos, cor-de-rosa e, em cada onda que lhes fica, navegam as memórias e estas conversas ao postigo. 


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sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Da terra molhada.

 


Oferecem-me cestos cheios das suas vidas, a cada intervalo das chuvas sempre que entram e saem dos quintais. Num desembaraço de morte rápida, arrancam hortaliças da terra molhada e, dizem sentir as mãos frias, como um coração morto. Das suas vozes abafadas pelas máscaras sociais, saem as dores do mundo nestes murmúrios de mulheres da aldeia.


                                                                                   (clica na fotografia para melhor imagem)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Último dia do ano.

 


Na mesa, uma toalha de recortes com todas as fotografias que nos cabem no coração. Desfiamos um rosário de máscaras, benzemo-nos em antissético e, rogamos calor de abraços e de beijos inocentes.  Suplicamos pela vida, imploramos os laços de sangue. Ano de cruz. Lá fora, a última lua cheia da década, o último dia do ano e, os amigos que não entram em casa. Prisioneiros e famintos, somos como lobos em matilha num dia frio de profundo inverno. Acendemos as velas, olhamos fixos a chama como se fosse verão e, acreditamos que não estamos sós.


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quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Ausências e afectos.



São tantas as ausências, que disparo da menina do olho desejos maiores do que na realidade quero. A privação inflamou uma vontade de abocanhar as minhas pessoas; apertá-las, esmagá-las como fruta de casca mole ou dura - são boas, doces, amorosas. São quem eu amo, mas de carapaça dura pelo medo. Numa fracção de segundos, transformo-me num bicho histérico sedento de tudo. Para meu bem, nem todos saberão fazer a leitura dos olhos. Deixo esse impulso de bicho, de tempos que já foram. Retorno aos olhos mansos e, a minha menina do olho inventa os beijos que ficam de baixo das máscaras. Os abraços, são caminhos de palavras.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Obrigada.



No vórtice das festas, dos afagos, das mesas fartas, veio o inverno e o janeiro com ele. E eu, atrasada, nestes dias últimos e primeiros. Um regresso com atraso, porque me fugiram para outros lados, as conversas. Atrasada, também na gentileza do agradecimento. Aqui. Aqui, onde nos encontramos a partilhar palavras. Honro-vos com esta imagem de árvore viva, aos nossos olhos, esta frescura cítrica – uma dádiva - acreditar na renovação do tempo. Foi para mim primeiro, e agora, é para todos vós, este presente!  Serão outras folhas; as folhas brancas do novo ano que iremos preencher juntos. Obrigada.


sábado, 22 de setembro de 2018

Casa




Casa - o lugar onde regressamos sempre. Descalçamos os sapatos e soltamos os ais de algumas canseiras. O verde relaxa. E hoje, por ser o dia de virar o calendário da estação, sendo já oficial o Outono, ainda que não parecendo, partilho este testemunho de flores e alfazemas tão cheias de Verão. As varandas e as merendinhas à sombra, este sol de casa.  


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Legados que não têm preço, são heranças de amor.

Texto e fotografia,mz



As mini rosas e a máquina fotográfica vintage que agora estão comigo, têm aqui o propósito das recordações. E na mala grande, álbuns com a vida lá dentro: a salinha de estar com a jarra de rosinhas salmão por cima do naperon de crochet e a tia com os rolos no cabelo e a lata de laca sunsilk a armarem-lhe o cabelo todos os dias. Os casamentos de mesas corridas, os bolos brancos de noiva de andares quase até à lua; como eram grossas as alianças! Viagens à europa de roulotte, as minissaias, e fatos de banho com copas de espuma. O pai a tirar fotografias às estrangeiras de biquíni. Outras, com as golas altas e as gangas, calças de boca-de-sino, as gravatas grossas e sapatos de plataforma. A guerra fria nas conversas e os  piqueniques de salada russa, o eterno abre latas para  as latas de pêssego em calda. As poses e os sorrisos, e os ares carrancudos sem hipótese de repetição. Os cliques da máquina fotográfica e as revelações.
A máquina não tem rolo há anos, mas as roseiras encostadas aos muros prometem testemunhar ainda, muitas memórias de Maio. É uma herança de amor.


terça-feira, 22 de maio de 2018

No regresso a casa

 
Texto e fotografia,mz


No regresso, parece que tudo cresceu imenso. Tudo está maior. Cresce também a sensação da dúvida. Será só para mim, ou também para quem planta coisas em qualquer lado, nem que seja num pote insignificante; um garrafão reciclado onde crescem morangueiros? Nesta ilusão, do crescimento agigantado, as malas ainda estão no canto do quarto por desmanchar desde o dia em que chegámos. Está tudo guardado e assim pode ficar até que mate saudades das flores e do quintal das laranjeiras, onde me sento com caderno e caneta e decido aumentar ainda mais o que vejo. A serra ficou lá longe onde guarda as cascatas, as montanhas agrestes e o verde que em breve desmaiará.



domingo, 6 de maio de 2018

Chapim-azul

Texto e fotografia,mz



Hoje, o meu primeiro Chapim-azul é para lembrar as tias. Alegres como estas cores, de olhares vivos, peito farto e vaidosas nos colares.
Neste dia quente e a idade adiantada, o frenesim balança entre uma sesta, e a sesta ganha. O Chapim é para as tias pelos riscos em papel de seda que era de pássaros e flores no linho dos lençóis e das toalhas bordadas. A paciência da minúcia das laçadas, os contornos e os cheios, os nozinhos e o matiz, e as cores suaves para que lhes embalassem os sonhos da noite, quiçá.
Queridas tias, tantas horas, tanta paixão nesta arte dos enxovais. O direito e o avesso na perfeição e num instante, o virar de um copo de vinho nas toalhas e os suores nas almofadas. O amor real a sujar esta arte, como assim deve de ser, pois então!


a rondar a ameixeira do quintal.