quinta-feira, 12 de abril de 2018

Cá por casa.

 
Texto e fotografia,mz


A claridade deste mês é intermitente, um pisca-pisca de cores escuras e coloridas; semáforo de sol e chuva. Os melros entram em casa em voos malucos e fazem das árvores sala de visita depenicando laranjas sem se importarem das chuvadas. Os vasos estão cheiros de anémonas e tulipas variadas e, num canto do quintal, na terra molhada, as frésias floriram sobrevivendo às regas exageradas, ainda que gratuitas, do céu. Apanha-se tudo ainda em botão e fazem-se bouquets pequeninos e baixinhos que se colocam em latas de tomate pelado sem o rótulo, porque as jarras são altas demais. E como as amêndoas já estão em saldo, compram-se a metade do preço para continuar a adoçar Abril, as nossas bocas e as conversas sobre o regresso da guerra fria.



sábado, 7 de abril de 2018

A súplica das árvores.


 Texto e fotografia,mz


A prosa é minha e o sentido das palavras que acompanham estas árvores. Elas não sabem o que lhes sussurrei nem que me ajoelhei no chão molhado para as trazer aqui, assim, parecendo uma súplica a bradar aos céus. Também desconhecem quem lhes deu esta forma de gadanhos grossos e abrutalhados, refreando o seu agigantar. As chuvas exageradas deram-lhe um espelho que lhes confunde os ramos com as raízes, e também não querem saber disso para nada. Esperam apenas um sopro morno de Abril que lhes despontem as folhas tenras, e lhes devolva de novo as vestes.


terça-feira, 3 de abril de 2018

Postal de Abril e esta curiosidade maravilhosa.

Texto e fotografia,mz



O irresistível chamamento da curiosidade é o que me ocorre. 
Vê-me. O olhar primeiro não lhe basta, e surge então esta visão dupla. A impressão de um segundo olhar, mais fixo, mais intenso. Parece-me tudo mais. Os olhos mais próximos, as orelhas mais abertas e o corpo por inteiro, maior. Um corpo em desequilíbrio com o monte a fugir-lhe, sem chão, e só o céu a compensar a pose estática como uma antena de precisão. Que mensagem transportará ao cérebro? Tudo o que eu prevaricar sobre o que cogita o ovino nestes verdes prados, é inocente e não passa do meu parecer a esta expressão maravilhosa.