domingo, 7 de maio de 2017

A herança das rosas e um ritual da avó

Texto e fotografia,Mz


As primeiras rosas são sempre para a mãe em dia de aniversário, contava-nos a avó.
Havia anos de Maio em que as roseiras eram tímidas e, quando chegava o dia, a avó apenas colhia botõezinhos do roseiral e fazia um bouquet com aura de criança. Pequenino, tenrinho e inocente, de laçarote de seda estreita que comprava a metro na retrosaria. Outros anos de Maio havia, em que estas meninas se apressavam, saíam da dormência de inverno espevitadas e cheias de pressa, a avó quase rezava para que não se desfolhassem quando fosse o dia de aniversário. Exuberantes e de pétalas abertas perdiam a inocência e transformavam-se num excessivo ramalhete, já sem lacinhos, repousavam os pés em água fresca na jarra mais bonita.

A herança das rosas chegou a mim também e hoje partilho estas do meu roseiral com a promessa de vos deixar outras mais tardias, ainda a formar botão e  que o capricho deste tempo de primavera mais parecendo verão, ainda não  impressionou.




rosas do meu roseiral 





quarta-feira, 3 de maio de 2017

Flores silvestres de Maio





Texto e fotografia,Mz

Os campos estão assim, coloridos.
Extensões coradas, nítidas, sobrepostas à contraluz, para logo depois, desfocarem como alucinações no deserto.
 Os passeios, vagarosos e longos como tardes de verão.


 








domingo, 30 de abril de 2017

Postal e uma crónica de Abril

Texto e fotografia,Mz


É fácil plantar cravos – dizem-me as mulheres da aldeia enquanto me pedem os talos dos molhos que levei à sepultura do pai. O pai nunca foi à tropa, nunca lutou no Ultramar devido a um acidente que lhe deixou uma pequena deficiência no braço. Disseram-lhe que lhe atrasava as rajadas de metralhadora. Livrou-se da guerra. Culto e conhecedor de outras políticas, nunca se resignou à ditadura, tornando-se num outro guerreiro e, entre muitos, um dos perseguidos da PIDE - Polícia Internacional da Defesa do Estado Português à época. Frequentava as reuniões na penumbra da noite e as detenções foram acontecendo. A mãe rezava, nessas noites. Quando aconteceu o dia da libertação, a alegria foi fogo que lhe vinha da alma, como se lhe nascesse outro filho. A mãe chorava, porque não lhe saía do pensamento que tamanha conquista se poderia converter numa guerra civil. O caminho, com imperfeições fez-se com rumo e paz e eu, dou graças e festejo. Planto cravos no jardim, vermelhos como devem ser para que se alongue eternamente a memória destes que desfilaram altaneiros nos canos das espingardas em dia de revolução. A revolução que se converteu em poesia e sem haver comparação, ocorre-me que tivemos cravos e não rosas de Hiroxima.



memórias da revolução de Abril
Afectos e dúvidas