Texto e fotografia,Mz
É fácil plantar cravos – dizem-me as mulheres da aldeia
enquanto me pedem os talos dos molhos que levei à sepultura do pai. O pai nunca
foi à tropa, nunca lutou no Ultramar devido a um acidente que lhe deixou uma
pequena deficiência no braço. Disseram-lhe que lhe atrasava as rajadas de
metralhadora. Livrou-se da guerra. Culto e conhecedor de outras políticas,
nunca se resignou à ditadura, tornando-se num outro guerreiro e, entre muitos,
um dos perseguidos da PIDE - Polícia Internacional da Defesa do Estado Português
à época. Frequentava as reuniões na penumbra da noite e as detenções foram
acontecendo. A mãe rezava, nessas noites. Quando aconteceu o dia da libertação,
a alegria foi fogo que lhe vinha da alma, como se lhe nascesse outro filho. A
mãe chorava, porque não lhe saía do pensamento que tamanha conquista se poderia
converter numa guerra civil. O caminho, com imperfeições fez-se com rumo e paz
e eu, dou graças e festejo. Planto cravos no jardim, vermelhos como devem ser
para que se alongue eternamente a memória destes que desfilaram altaneiros nos canos das espingardas em dia de revolução. A revolução que se converteu em
poesia e sem haver comparação, ocorre-me que tivemos cravos e não rosas de Hiroxima.
memórias da revolução de Abril
Afectos e dúvidas